56 quilômetros
- Gabriel Rosa

- 30 de jun.
- 2 min de leitura
Atualizado: 30 de jun.
Crônica de uma apuração

— Opa, tem mais um ponto depois desse, não tem?
Ao ouvir minha pergunta, o motorista — um homem de poucos sorrisos — apontou para um terminal a poucos metros dali.
— Ali dentro.
Era um pequeno terminal, limpo e mal iluminado. Algumas pessoas transitavam com malas de mão, enquanto outras aguardavam pacientemente a condução chegar. Ao redor, pequenos quiosques vendiam cachorros-quentes, caldos de cana, pastéis e biscoitos industrializados.
Saltei do ônibus. Parei por um instante para fazer algumas anotações e voltei a calcular o trajeto que ainda faltava: cerca de 30 quilômetros.
Depois de observar o ambiente com mais atenção, identifiquei um ponto de carregamento de celulares. Logo acima das tomadas, uma grande propaganda de apostas esportivas estampava a parede. “Claro”, pensei.
Fiz ali uma pausa rápida de dez minutos para carregar o celular, que estava com 79% de bateria e precisava sobreviver até o fim do dia. E o dia, por sua vez, ainda reservava algumas longas viagens de transporte público.
Mas o tempo era curto.
Levantei e retomei o caminho. Atravessei um pequeno quarteirão e subi uma passarela de cinquenta degraus, onde circulavam pessoas de passos apressados. Alguns metros à frente, senti o tornozelo arder, consequência de uma escolha equivocada de calçado. Por sorte, logo cheguei a um ponto de ônibus próximo a uma banca de jornal.
Esperei o que pareceram ser 5 minutos até a próxima condução chegar e embarquei no 705P, sentido Bangu. Quem me orientava a todo momento era um aplicativo de transporte, ditando cada passo do percurso. Sozinho, dificilmente eu teria chegado à metade do caminho. Não pela dificuldade, mas porque aquele era um ponto de chegada desconhecido para mim.
O ônibus cinzento avançou por uma estreita estrada, cercada por pequenos estabelecimentos comandados por comerciantes que pareciam cultivar uma curiosa vocação para a autopromoção. A lista era extensa: “Wilma Manicure, Ribeiro Materiais, André Gráfica, Cris Modas, Cantinho da Vovó Teresa, Adega e Bar Thalys, Jardim Escola Vovó Eny, e Marcelo Restaurante”. Este último exibia, orgulhosamente, uma caricatura sorridente do proprietário na entrada.
De repente, o cenário urbano deu lugar a um caminho cercado de mata dos dois lados. Havia vales e, em um deles, podia-se ler: “Jesus, o soldado da justiça”, ao lado de um versículo bíblico. Ao menos foi o que me pareceu, considerando que, entre fios elétricos, casas erguidas nas encostas e uma neblina espessa, precisei me esforçar para distinguir qualquer coisa.
O ar-condicionado mantinha o interior do ônibus frio. O tempo havia mudado e o céu estava tomado por nuvens carregadas. Parecia que a chuva não demoraria.
Tudo bem. Eu já estava perto.
Às 9h28, aterrissei no meu destino. “Ainda é cedo”, pensei.
Ouvi alguns meninos brincando em uma quadra de vôlei. À frente, uma rua de chão batido seguia em direção ao endereço que eu procurava. Caminhei por ela, obedecendo às orientações recebidas. Enquanto avançava, percorria com os olhos cada casa, à procura do número informado.
Não demorou. Estava logo ali.
Pelo portão já aberto, pude perceber certa movimentação. O dia parecia ter começado agitado naquela casa. Aproximei-me e ouvi uma voz gentil dizer:
— Pode entrar.

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