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A PACIENTE

  • 24 de dez. de 2025
  • 18 min de leitura

Atualizado: há 5 dias

E o percurso improvável de sua voz


Por Gabriel Rosa, de Rio de Janeiro. 24 de dezembro de 2025


Ela não aparecia sempre. Nas raras ocasiões, se aproximava, com um cobertor sobre os ombros, o rosto pintado com uma tinta branca. Carregava um semblante sério e uma expressão observadora, que analisava todo o ambiente. Ao seu redor, algumas mulheres se concentravam em manusear papéis, tintas e até mesmo barro. Nada daquilo era bem o que procurava. Ali, no ateliê artístico, onde as pacientes internadas encontravam um respiro em meio à solidão do confinamento, ela não buscava os trabalhos manuais. Seu domínio era outro: as palavras. Stella do Patrocínio tinha muito para falar. Quando aparecia uma brecha, deixava as palavras saírem. “Ela entrava e falava, e falava poesia”, lembra Denise Corrêa, ex-psicóloga da Colônia Juliano Moreira, hospital psiquiátrico em que Stella ficou internada por 30 anos, até os últimos dias de vida. Sua voz, antes sentenciada ao esquecimento, percorreu um caminho improvável e singular. Hoje, é considerada poeta e teve sua obra, o falatório, publicada em um livro póstumo.


Pouco de sua história anterior à internação sobreviveu aos anos de confinamento. Nascida em 9 de janeiro de 1941, no Rio de Janeiro, Stella era a segunda filha de cinco irmãos: Germiniano, Olívia, Carlos Chagas, Antônio e Ruth do Patrocínio. Filha de Zilda Francisca do Patrocínio e Manuel do Patrocínio. Até os 21 anos, idade em que foi internada involuntariamente, morou em um apartamento nos fundos de um prédio de três andares no bairro carioca de Botafogo. De acordo com arquivos médicos, seu último emprego havia sido como empregada doméstica em uma casa na Urca, bairro vizinho ao seu.


Numa quarta-feira ensolarada, Stella do Patrocínio não retornou para casa. Caminhava, ao lado de seu amigo Luís, na Rua Voluntários da Pátria, em uma área movimentada do bairro em que morava, próximo à praia, quando uma viatura parou e a abordou. Encaminharam-na ao Pronto Socorro da Praia de Botafogo. Depois, foi levada ao Centro Psiquiátrico Pedro II, no Engenho de Dentro, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Quanto ao motivo da abordagem, não há informações que a justifiquem, com exceção de Stella se enquadrar em um perfil comum nos manicômios brasileiros: mulher, preta e pobre.


Deu entrada no hospital em 15 de agosto de 1962. Após 1G dias de internação, recebeu o diagnóstico que seria sua sentença: esquizofrenia hebefrênica, evoluindo sob reações psicóticas, uma subcategoria da esquizofrenia, caracterizada por um pensamento desorganizado e dificuldade de comunicação. Permaneceu, no Centro Psiquiátrico, por três anos e meio, saindo em 3 de março de 1966, transferida para a sua nova morada, a Colônia Juliano Moreira. Localizado em Jacarepaguá, o manicômio recebia os casos psiquiátricos considerados irrecuperáveis.


Fundada em 29 de março de 1924, sob o nome de Colônia de Psicopatas de Jacarepaguá, a Colônia Juliano Moreira ocupou, estrategicamente, um território afastado do centro urbano, a antiga fazenda Engenho Novo, uma área que se estendia por 7 mil quilômetros quadrados – equivalente à área do bairro carioca de Copacabana. Foi renomeada em 1935, homenageando o seu idealizador, o psiquiatra Juliano Moreira, médico pioneiro na área da psiquiatria que combateu de frente o racismo científico. Sua estrutura abrangia 79 prédios, entre hospitais e pavilhões. Nos anos 1970, abrigou mais de 5 mil internos. Ficou conhecida como Fim de Linha. Era o depósito de sujeitos considerados desajustados, como alcoólatras, pobres, prostitutas e sexualmente ativos, enviados, sem esperanças, para lá. Um território que, cruzado uma vez, não tinha retorno.


Quando convidado para integrar a equipe médica da Colônia, o psiquiatra Pedro Silva deixou para trás seu mestrado em medicina social, já em andamento, e prontamente aceitou a proposta. Em julho de 1982, chegou ao hospital psiquiátrico, designado como assistente em uma das unidades femininas, o Núcleo Teixeira Brandão, que contava com cerca de 600 mulheres internas. Entre elas, Stella do Patrocínio, a quem descreve como uma mulher “elegante, presente e altiva.” Características que em nada se assemelhavam à hostilidade do manicômio, que o psiquiatra descreve em três aspectos.


Primeiro, a violência, física e emocional, nos atendimentos aos internos. Em segundo lugar, a grande quantidade de pacientes. “Geralmente, eram centenas de pessoas recolhidas, de maneira compulsória, de maneira involuntária.” Um mesmo dormitório podia comportar cerca de 70 camas, separadas por uma distância equivalente a um palmo. E, por último, um ambiente extremamente sujo. “Você presenciava com toda nitidez na hora das refeições. Como eram grandes populações, os refeitórios eram abarrotados. Era tudo muito sujo. Aquilo gerava todo tipo de problema de saúde, infestação e contaminação”, lembra Pedro. “Uma das coisas que Stella falava criticamente eram essas condições de vida dentro dos asilos. Boa parte de sua poesia se dá através de uma crítica a essas condições.”


Um ano antes, em 1981, quem adentrava pela primeira o território da Colônia Juliano Moreira era a jovem Denise Corrêa. Contratada como psicóloga temporária, ficou encubida, ao lado de uma equipe, de mapear os pacientes do hospital psiquiátrico. Com a efervescência do movimento de luta antimanicomial, reivindicando melhores condições nos atendimentos dos pacientes psiquiátricos, a estrutura da Colônia passou por transformações. Tais mudanças resultaram na criação de estratégias.


para modificar as relações estabelecidas ali dentro. A pesquisa da qual Denise participou buscava reunir dados dos pacientes da Colônia, numa tentativa de recuperar parte de suas histórias e identificar parentes vivos. Alguns estavam no hospício há mais de 30 ou 40 anos, sem vínculos familiares, carentes de conexão com o mundo exterior. Sabia-se muito pouco sobre os mais de 2.500 internos, cujas informações haviam se perdido. Quem eram aquelas pessoas? Um a um, todos os pacientes foram entrevistados, por meio dos Grupos de Escuta. “A palavra de ordem era: dar voz ao paciente”, lembra Denise. “Não eram apenas números.”


Ao fim do contrato inicial, a psicóloga Denise Correa deu continuidade ao seu trabalho na Colônia, permanecendo na unidade masculina, o Núcleo Ulisses Viana. Lá, conheceu um homem que a impactou profundamente. Arthur, um sergipano que havia largado sua cidade natal, Japaratuba, em busca de uma vida nova no Rio de Janeiro. Antes de chegar à Colônia, trabalhou na Marinha e se tornou campeão de pesos-leves no boxe, sofrendo, em 193G, um acidente, quando uma roda de um bonde esmagou o seu pé, deixando-o manco. Na noite de 22 de dezembro de 1948, Arthur saiu da casa do advogado Humberto Leone, a quem prestava serviços domésticos, e foi andando, madrugada adentro, até o Mosteiro de São Bento, no centro do Rio de Janeiro. Afirmava ser um visionário e “o filho de Deus”. De lá, foi encaminhado ao hospício da Praia Vermelha, sendo, depois, transferido para a Colônia Juliano Moreira, sob o diagnóstico de esquizofrenia. Já na Colônia, Arthur produziu obras com sucata e bordado, como um manto que ilustra a sua visão do mundo e da passagem de Deus na Terra. Ficou conhecido por seu sobrenome de batismo: Bispo do Rosário. Conhecê-lo foi um choque para Denise: “Essa coisa ficou, assim, muito inquietante. Como é que uma pessoa pode, naquele isolamento, fazer arte? E fazer arte do lixo.”


A inquietação de Denise, fruto daquele encontro, não se desfez com o tempo. Uma pergunta sempre retornava: “Existem outros como ele na Colônia?” A psicóloga já desconfiava da resposta. O questionamento só se concretizaria, de fato, num dia em que Denise caminhava até o ponto de ônibus, ao lado de sua colega de trabalho, a também psicóloga Marlene de Sá. Naquele instante, compartilhando seus pensamentos com Marlene, teve um primeiro lampejo de uma ideia ousada: encontrar outros artistas na Colônia Juliano Moreira. Marlene, que havia tido contato com algumas pacientes da unidade feminina, o Teixeira Brandão, concordou e deu apoio à iniciativa da amiga. Juntas, perceberam que seria uma excelente oportunidade desenvolver um projeto que pudesse incentivar a criação artística daquelas mulheres.


Foi por intermédio de sua professora, Nelly Gutmacher, que Carla Guagliardi recebeu a proposta de participar das oficinas artísticas na Colônia Juliano Moreira. Denise Corrêa e Marlene Sá fizeram, pessoalmente, uma visita à Escola de Artes Visuais do Parque Lage, onde Carla estudava. As duas psicólogas estavam em busca de profissionais aptos a tomar a frente do projeto quando conheceram Nelly, uma professora de artes que produzia obras a partir de materiais recicláveis. Era exatamente o que procuravam: estimular a interação das pacientes com sucata. Nelly não só aceitou o convite, como o estendeu a dois de seus alunos, Carla Guagliardi e Márcio Rolo.


Mas a excepcionalidade do pedido exigia, antes do ‘sim’, uma primeira visita à Colônia, que era, até então, um mundo completamente desconhecido para os três. Assim foi feito. Foram todos conhecer o hospital psiquiátrico. Ao fim da visitação, tiveram a certeza da resposta, mas não sem antes presenciarem um momento inusitado. Carla Guagliardi aguardava do lado de fora, próximo ao carro no qual vieram, junto de um enfermeiro, quando a cena se desenrolou: “Um paciente, completamente nu, passava que nem um soldado. De repente, ele viu a porta do carro aberta e bateu a porta do carro com muita força. E eu levei um susto. Aí o enfermeiro falou para mim ‘ele não pode ver portas abertas’, com a maior naturalidade”, conta a artista. “Acho que nesse momento, deu um clique e não tive mais medo.” Foi só aí que aceitou o convite de integrar a equipe.


Até 1986, o galpão abandonado no núcleo Teixeira Brandão era um espaço praticamente inutilizado. Com exceção de alguns colchões, depositados ali, não havia nada além de poeira. Parecia o local perfeito para o projeto que Denise e Marlene estavam tocando. Antes, só precisava de uma faxina. Na sequência, Denise, ao lado de Marlene, embarcou em um caminhão da Colônia “caindo aos pedaços”, como lembra a psicóloga, em meio a risos, e partiu em direção às fábricas, recolhendo doações de materiais, como tecidos, tintas, pincéis e madeira, para compor o acervo da oficina.


“Gente, vamos trabalhar com tinta!”, gritava uma jovem psicóloga, empolgada, correndo de enfermaria em enfermaria, convocando as pacientes. Era o primeiro dia da oficina e Denise queria ter certeza de que o convite chegaria ao número máximo de mulheres possível. Apesar da empolgação, não obteve uma resposta à altura. Apenas seis pacientes toparam se aventurar naquela nova experiência no antigo galpão abandonado. Do lado de fora, no entanto, alguns olhares curiosos espiavam o que rolava dentro do ateliê. Terminado o primeiro dia, uma das participantes saiu, dizendo: “Gente, não é nada de trabalhar não, é brincar com tinta.” “Porque eu não falei assim?”, pensou Denise.


Daquela primeira ideia em um ponto de ônibus, nasceu o Projeto de Livre Criação Artística, em setembro de 198G. A divulgação era feita no boca a boca. Sempre que avistavam um grupo de pacientes nos arredores, seja nos jardins ou nos dormitórios, as psicólogas e artistas faziam o convite. Pouco a pouco, as mulheres interessadas foram chegando, ao longo das semanas, ainda se acostumando com a ideia de participarem de uma atividade atípica para uma rotina que sempre foi tão solitária. Parecia um mundo à parte daquele construído no interior dos muros do hospício. “Era um lugar bem triste, era uma vida muito vazia de sentido, porque elas não tinham o que fazer”, conta Carla Guagliardi. “O objetivo da oficina era ‘desembotar’ aquelas pacientes.”


Com o passar do tempo, o ateliê ganhou contornos de vida. Tinha data e hora marcada: toda quarta-feira, pela manhã. Um grupo assíduo, com mais de 50 mulheres, se juntou às atividades, que não tinham regras. Era um espaço de experimentação, onde as mulheres podiam deixar sua imaginação rolar solta. Foi, sem dúvida, muito intenso, como lembra Carla. “As pessoas te agarravam muito. Elas tinham muita carência, queriam te pegar e dar abraço, beijo.” Uma vez, levaram barro. Luzia, uma das pacientes, confeccionou panelas com o material. “Eram coisas lindas”, comenta Carla. “A gente ficou muito abismado com essa criação espontânea de algumas.” Uma outra paciente escavava, com uma colher, buracos no chão, onde eram descartadas embalagens de seus medicamentos, para serem cobertos por palha em seguida. Maria José fazia bonecas de pano, representando mulheres e pássaros. Fora os desenhos, que eram “fortíssimos”. Um acervo de materiais estava à disposição: papéis contavam histórias através dos desenhos, as bonecas de artesanato ganhavam vida e as pacientes encontravam um pouco de conforto e escuta naquele universo marcado pelo silêncio.



A voz

Quando Stella do Patrocínio apareceu pela primeira vez no ateliê, o projeto já estava em andamento há um tempo. “Eu lembro muito bem da aparição dela”, diz Carla Guagliardi. Stella se aproximou, enrolada, como um manto, em um cobertor. O rosto, pintado com uma tinta branca. No olhar, uma expressão séria, analítica, observadora. Algo que, nas palavras de Carla, demarcava sua atitude meio “alfa, soberana, de comando sobre as outras”. Uma identidade que era só sua. Essa cena se repetiria numa frequência inconstante: aparecia e observava, até encontrar o momento certo de falar. Entrava e saía do galpão, com aparições esporádicas.Nos trabalhos manuais, se empenhava pouco. Desenhava apenas uma assinatura ou um rabisco simples. Seu forte mesmo era a conversa. Ou, como ela mesma chamava: o seu falatório. Gostava de falar, mas em seus termos e no seu próprio tempo. Às vezes, se mostrava falante e comunicativa. Em outras ocasiões, afirmava não ter mais nada a declarar. No momento que não estava afim de conversa, dizia em alto e bom tom: “Eu já falei em excesso.” E ia embora. Quando dizia ‘não’, de nada adiantava insistir. Pouco a pouco, Stella foi abrindo caminho com sua voz. Logo, desenvolveu uma relação carinhosa com a equipe da oficina, especialmente Carla, com quem passava as manhãs, andando pelos arredores.


“Você se apaixona, né? Uma espécie de paixão”, reflete Carla Guagliardi. “Stella era muito fascinante, sabe? Você queria mais, você ficava querendo ouvir mais, querendo entender mais aquilo. Acho que deve ser como conhecer Clarice Lispector, assim, sabe? São pessoas que têm um universo próprio muito singular, muito forte e que despertam uma curiosidade muito grande, né? Acho que é um magnetismo.”


Com sua fala desconcertante, Stella despertou a curiosidade dos artistas experientes que coordenavam a oficina. O que ela falava soava com poesia. “A gente ficava impregnado”, conta Carla.


A estagiária de artes então teve uma ideia: gravar as conversas com Stella. Passou a carregar um pequeno gravador de fita cassete em sua bolsa. Eventualmente, nas brechas entre uma atividade e outra, ligava o pequeno objeto.


Hoje, esse material está disponível no endereço eletrônico do Museu Bispo do Rosário, espaço que também abriga as obras produzidas pelo Bispo ao longo dos 49 anos em que esteve internado na Colônia. São quatro áudios, que, juntos, têm 1 hora, 39 minutos e 27 segundos de duração. O que se segue é uma conversa, sem roteiro definido, entre Stella do Patrocínio e suas mediadoras, Carla Guagliardi e Nelly Gutmacher. As profissionais provocam as perguntas e Stella responde, com sua fala doce, lenta e mastigada. Essa última característica, provocada, em parte, pela retirada de seus dentes, uma prática comumente realizada em pacientes psiquiátricos, devido à precariedade de higiene nas instituições hospitalares. Como lembra Carla, Stella “mastigava as palavras”. Enquanto a conversa se desenrola, ouve-se, ao fundo, sons de pessoas em um movimento constante, carros passando, risadas e vozes femininas das pacientes participantes da oficina, que, vez ou outra, interrompem a conversa para cumprimentar Stella.


Na cena principal, uma mulher de 45 anos, que vivia há quase duas décadas e meia confinada, deixa as palavras saírem livres. Denuncia, ao seu modo, a violência racista de seu isolamento: “Mãe Denilza disse que sou escrava do tempo do cativeiro. Fui do tempo da tua bisavó, da tua avó, da tua mãe. Agora sou do teu tempo.” Naquele pequeno espaço de escuta, Stella afirma sentir muita fome e pede, constantemente, por chocolates e maços de cigarros. Diz não se sentir bonita e, quando questionada se sente-se triste, responde que “sempre foi assim”. Fica sentada, pensativa. Afirma não se reconhecer como poeta, contrariando a insistência daquelas mulheres diante dela em lhe dizerem que sim, era bonita, poeta, inteligente. Uma estrela. Em alguns momentos, o silêncio toma conta do ambiente, cortado apenas por alguma de suas reflexões: “A vida, né? A gente tem que aceitar como a vida é, não como a gente quer, né? Se fosse como eu queria, eu não queria ver ninguém no mundo, não queria ver ninguém na casa, queria tá toda hora comendo, bebendo e fumando. Assim é que eu queria que fosse o meu gosto.”


O gravador era um objeto mágico à parte. “Stella, você entendeu isso aqui? A gente tá gravando, vai repetir o que você falou”, diz Carla, quando aperta o botão de gravar. Em seguida, Stella indaga: “Como é que pode essa gravação, esse aparelho, né? Gravando voz que tá sendo palavras ao vento, e repete direitinho como a gente, né?” E continua: “É a voz da gente transmitida para eles, e eles imitando a gente.” “Eles quem são?”, pergunta Carla. Stella responde que haviam pequenos seres, invisíveis, morando dentro do gravador, responsáveis por registrar e reproduzir tudo o que fosse dito.


Uma episódio especial marcou Carla. Fizeram uma viagem com as pacientes da Colônia. No ônibus, a conversa não parava. Sentadas nas poltronas, as pacientes falavam todas ao mesmo tempo, eufóricas com o passeio. Estavam a caminho do zoológico. Foi um pedido delas: ver os animais. Logo que chegaram, Stella se agarrou nos braços de Carla, como já era de costume. As duas observavam os bichos, lado a lado, quando se depararam com um elefante. Pararam, meditativas, diante do animal. Stella levantou os olhos em direção à Carla. “Um bicho desse ninguém faz, né?”, disse. “Ele se faz sozinho.” Era em momentos como esse que Carla sentia-se tocada pelas palavras de Stella. “Aí você tira o chapéu, tira a roupa toda, tira o sapato”, brinca, em reverência à grandiosidade de seu falatório.


O desfecho da oficina artística foi em grande estilo. Em dezembro de 1988, o Museu do Paço Imperial, no Centro do Rio, recebeu a exposição "O Ar do Subterrâneo", organizada por funcionários da oficina, cujo acervo era composto por obras de mulheres que participaram do projeto na Colônia. Entre elas, estava Nilsa, com seus vestidos customizados. Maria José, com suas bonecas. E Iracema, que reproduzia uma espécie de casa com objetos descartáveis. Os visitantes que entraram no museu também se depararam com algumas tiras de papel coladas em uma das paredes da exposição. Nelas, estavam datilografadas poesias de Stella do Patrocínio. Como a poeta não produzia trabalhos manuais, a solução encontrada foi datilografar o seu falatório. Espalhadas pelas paredes, as palavras de Stella ultrapassaram, pela primeira vez, os muros de seu confinamento. A exposição durou um mês e meio, encerrando em janeiro de 1989, ano em que foi apresentado ao Congresso Nacional o Projeto de Lei n. 3.657/89, do deputado Paulo Delgado, que propunha a extinção progressiva dos manicômios no país.


Para Denise Corrêa, a exposição foi um dia único. “Foi uma das coisas mais emocionantes que vivi, porque elas foram”, conta, emocionada. “Era aquela vida pulsante daquela gente que sofria a beça. Então qualquer vitória era bom demais.” Parte da emoção de Denise se deve ao fato das pacientes terem estado presentes na inauguração. Para a data, foram confeccionados, com alguns panos doados à oficina, vestidos para as artistas. A psicóloga se despediu do hospital psiquiátrico em 1995. No mesmo ano, a Colônia passou a se chamar Instituto Municipal de Assistência à Saúde Juliano Moreira e foi criado o Centro de Atenção Psicossocial Rubens Correa, o primeiro CAPS da região.


Em 1990, as conversas gravadas com a poeta chegaram a ser retomadas. Dessa vez, por intermédio de Mônica Ribeiro Souza, estudante de psicologia e estagiária na Colônia. Monica, sob a supervisão de Denise Corrêa, à época diretora do então Museu Nise da Silveira, hoje Museu Bispo do Rosário, tentou, ao longo de um ano, preencher as lacunas da história de Stella. Visitou, repetidamente, os endereços dados por ela, em busca de novas informações ou parentes vivos. Mas sem sucesso. Suas conversas com Stella foram registradas em fita cassete, assim como fez Carla Guagliardi, depois transcritas e datilografadas em um documento intitulado “VERSOS, REVERSOS, PENSAMENTOS e algo mais..”, entregue à instituição como relatório de conclusão de estágio, em 1991, quando se formou.


Stella adoeceu por problemas de diabetes e hipertensão arterial em meados de 1992. “A diabetes viria a ser a causadora de seus grandes males”, conta o psiquiatra Pedro Silva, que atendeu Stella ao longo de 10 anos e acompanhou os seus últimos meses de vida. No início, o tratamento teve resultados. Stella, no entanto, recusava tomar qualquer medicação que lhe era receitada, tanto os antipsicóticos, como a clorpromazina, quanto os medicamentos para tratar de sua diabetes.


Jogava-os todos fora. Quando tomava, era de forma irregular, o que complicou muito o seu quadro de saúde, gerando uma descompensação. Logo, desenvolveu um quadro de hiperglicemia grave. Foi encaminhada para o Hospital Cardoso Fontes, já em estado avançado. Devido a complicações da diabetes, apresentou uma dificuldade de circulação nos membros inferiores. Lá, precisou amputar uma perna. Retornou, após alguns dias, ao bloco médico cirúrgico, uma unidade de apoio clínico dentro da Colônia.


Pedro Silva recorda que, durante esse período, Stella carregava um semblante triste, devido ao seu estado de saúde. Como passava muito tempo no leito, contraiu uma infecção, que foi fatal. Denise também esteve presente nesse momento: “Uma coisa, assim, é um detalhe, mas me machucou até. Ela me pediu para levar uma maçã assada para ela. E eu não pude ir no dia seguinte. Fui no outro. Mas ela faleceu antes. Se eu soubesse, tinha largado todo o trabalho da Colônia e ido para lá.”


Às 1h10 da manhã de 22 de outubro de 1992, Stella do Patrocínio morreu, aos 51 anos de idade. Seu corpo foi sepultado como indigente no Cemitério de Inhaúma, na Zona Norte do Rio.


Carla Guagliardi havia guardado os materiais da exposição exibida no Paço Imperial. Passados cinco anos, já após a morte de Stella, conheceu Cabelo, um poeta e músico, integrante da banda Boato. Um dia, o cantor a convidou para assistir a um de seus shows. Da platéia, levou um susto: ao fim da apresentação, Cabelo declamou frases de Stella do Patrocínio. Eram as conversas que Carla havia gravado. “Eu chapei total”, lembra Carla. “Como isso chegou até ele?” Em seguida, perguntou ao cantor como havia tido acesso àquele material. Para a sua surpresa, Cabelo esteve presente na exposição “O Ar do Subterrâneo” e se encantou pelos versos de Stella, datilografados e expostos no museu. Copiou, um por um, em uma caderneta. Na época, não se conheciam. Carla mal acreditou na coincidência. Levou Cabelo para escutar o material original, cujas fitas já estavam no fundo de sua gaveta.


Por fim, as palavras de Stella chegaram até a pesquisadora Viviane Mosé, amiga de Cabelo, que também presenciou um de seus shows. Ao ouvir a poesia de Stella declamada pelo cantor, entrou em contato buscando a origem daquelas palavras. Cabelo apresentou Viviane à Carla, que compartilhou as fitas com as gravações de Stella. A pesquisadora reuniu as transcrições do falatório em um livro chamado “Reino dos bichos e dos animais é o meu nome”, título que faz referência a um de seus relatos. Os animais eram, inclusive, um tema recorrente em suas enunciações. Dizia não gostar deles, apesar de citá-los com frequência. A obra literária foi lançada em 2001, nove anos após a morte de Stella, pela Azougue Editorial. Atualmente, está esgotada em todos os sites.


Em sua pesquisa de mestrado “Stella do Patrocínio: da internação involuntária à poesia brasileira”, defendida em 2020, Anna Carolina Vicentini Zacharias afirma que Zilda, mãe de Stella, também esteve internada no Núcleo Teixeira Brandão, onde conviveu com a filha por pelo menos 10 anos. Há poucos dados sobre essa interação, com exceção de um prontuário médico, afirmando que Stella “fazia-lhe visitas trazendo guloseimas”. Um dos sobrinhos de Stella se recorda de visitar a tia e a avó na Colônia, nos anos 1980. A morte de Zilda só foi informada à família em uma das visitas que o menino fez ao lado de sua mãe. Três sobrinhos de Stella estão vivos. Seus irmãos e irmãs já morreram. Seu sobrinho a descreve como uma mulher carinhosa, inteligente e dedicada, que escrevia assiduamente em seu caderno. Relata, ainda, que apesar de se dedicar aos estudos, Stella não conseguia se desvencilhar do emprego de doméstica.


Em depoimento à reportagem, o psiquiatra Pedro Silva refletiu sobre o diagnóstico dado à Stella na época de sua internação involuntária, 20 anos antes de conhecê-la: “Eu nunca cheguei a ter um diagnóstico definitivo para ela, porque faltavam a ela algumas características, na minha avaliação, para esquizofrenia. Ela tinha um discurso fora da realidade, mas não um delírio.” Quando questionado se acredita que Stella seria, nos dias atuais, considerada esquizofrênica, responde: “Hoje, eu acredito que ela não receberia esse diagnóstico.”


Após 98 anos, o Instituto Municipal de Assistência à Saúde Juliano Moreira encerrou as suas atividades de internação, no dia 27 de outubro de 2022. O último núcleo do complexo psiquiátrico a ser desativado foi o Franco da Rocha, que hoje funciona como um espaço de convivência aberto à comunidade do entorno. “Com isso, o Município do Rio de Janeiro conclui o processo de desinstitucionalização de pacientes psiquiátricos, um marco na luta antimanicomial”, informou a prefeitura por meio de uma nota, conforme reportagem publicada no Brasil de Fato. Hoje, o território da Colônia transformou-se em um bairro, onde há moradias. Além disso, o Museu Bispo do Rosário permanece preservando as obras de arte de ex-pacientes. Alguns, ainda moram na região. Em 2012, foi inaugurado o condomínio Stela do Patrocínio, que recebeu 80 pacientes provenientes dos antigos núcleos da Colônia. O nome de Stella é comumente grafado com um “L” apenas, um equívoco que a pesquisadora Anna Carolina Vicentini Zacharias corrigiu em sua pesquisa de mestrado. Como aponta a pesquisadora, a grafia correta de seu nome é com dois “L”, conforme consta em seu Registro Geral.


Os ecos de Stella

O falatório de Stella do Patrocínio é fonte de inúmeras pesquisas. Em 2022, foi publicado o livro “Uma encarnação encarnada em mim”, da autora Bruna Berber, que resgata a voz de Stella do Patrocínio, e em 2023, o livro “Stella do Patrocínio, ou o retorno de quem sempre esteve aqui”, escrito pela pesquisadora Anna Carolina Vicentini Zacharias. Suas palavras já conquistaram os palcos, sendo interpretada, em 2017, pela atriz Cleide Queiroz, na peça “Palavra de Stela”, e em 2025, pela atriz Tuane Martins, no monólogo “A Trajetória de Stella”.


Diariamente, faço o mesmo trajeto: desço no metrô de Botafogo e caminho pelo bairro até chegar ao campus da UFRJ, na Praia Vermelha. Todos os dias, passo pela Rua Voluntários da Pátria, local em que Stella caminhou livre pela última vez, antes de ser capturada por policiais. Certo dia, percebo um lambe-lambe, um desses cartazes que ficam colados nos muros, com uma imagem familiar: uma mulher carrega, em sua mão, uma lata de alumínio, posicionada, como um microfone, na direção de sua boca, que parece dizer algo que a fotografia não é capaz de decifrar. É Stella do Patrocínio, em um de seus raros registros. Ao lado de seu retrato, lê-se “Stella, bem patrocinada”, seguido de trechos de seu falatório. Espalhados pelo bairro, os lambe-lambes estampam os muros das ruas. O projeto “Falatório na Rua” distribui as palavras da poeta em alguns pontos da região. Marcos Ferreira, idealizador do projeto, conta que o objetivo é dar visibilidade ao falatório da poeta. “Devolver a fala (de Stella), se não fisicamente, pelo menos artisticamente, para as ruas”, afirma. Apesar do caminho singular percorrido por sua voz, a história de Stella não é única. Sua enunciação carrega a dor de quem não pôde ser livre. Impedida de andar pelo mundo, Stella do Patrocínio traduziu em suas falas a história daqueles que, considerados transgressores da norma, tiveram seus corpos subjugados e suas vozes silenciadas. A poeta, que teve seu caminhar interrompido, hoje circula pelas ruas do bairro em que residia. Uma reparação simbólica, incapaz de modificar ou apagar o passado, mas que direciona o olhar para uma história que pede para ser contada. É quase como se a poeta dissesse: eu estive aqui.




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