56 quilômetros
- Gabriel Rosa

- 3 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 25 de abr.
Crônica de uma apuração

— Opa, tem mais um ponto depois desse, não tem?
Ao ouvir minha pergunta, o motorista, um homem de poucos sorrisos, apontou para um terminal — que eu ainda não havia visto — a poucos metros:
— Ali dentro.
Saltei do ônibus. Parei por um instante para fazer algumas anotações, e voltei a calcular o trajeto que ainda faltava — cerca de 30 quilômetros. Era um pequeno terminal — limpo e mal iluminado —, onde algumas pessoas transitavam com malas de mão, enquanto outras aguardavam pacientemente a condução chegar. Em volta, haviam pequenos quiosques de alimentação, onde eram comercializados, entre outras coisas, cachorros-quentes, caldos de cana, pastéis e biscoitos industrializados.
Dei mais uma conferida no ambiente e identifiquei um ponto de carregamento de celulares. Uma grande propaganda de site de apostas estampava a parede logo acima das tomadas. “Claro”, pensei.
Ali, fiz uma rápida pausa de 10 minutos para carregar meu celular, que estava em 79% e precisava sobreviver até o fim do dia, que só terminaria depois de mais algumas longas viagens de transporte público. Minha internet, por sua vez, estava nos seus últimos minutos de vida, com ínfimos 1,1 gigabytes, que também precisavam ficar vivos até o final da minha jornada.
Mas o tempo era curto.
Levantei e retomei o passo. Atravessei um pequeno quarteirão, subindo uma passarela de 50 degraus de escadas, onde pessoas de pés apressados circulavam. Alguns metros a frente, senti meu tornozelo arder, devido a uma escolha equivocada de calçado. Por sorte, cheguei logo a um ponto de ônibus próximo a uma banca de jornal.
Esperei — pelo que pareciam ser 5 minutos — a próxima condução chegar, e subi no ônibus 705P, sentido Bangu. Quem me orientava a todo tempo era um aplicativo de transportes, ditando qual seria o meu próximo passo. Eu, ao contrário, não teria chegado à metade do trajeto por conta própria.
O ônibus cinzento atravessou uma estreita estrada, cercada por pequenos estabelecimentos, liderados por pessoas que, curiosamente, gostam de uma autopromoção. Eis aqui uma lista: “Wilma Manicure, Ribeiro Materiais, André Gráfica, Cris Modas, Cantinho da Vovó Teresa, Adega e Bar Thalys, Jardim Escola Vovó Eny, e Marcelo Restaurante”. Este último exibia, orgulhosamente, uma caricatura sorridente do dono na entrada.
De repente, o cenário urbano foi substituído por um caminho cercado de mata por todos os lados. Ao redor, haviam vales, e podia ler-se em um deles: “Jesus, o soldado da justiça”, ao lado de um versículo bíblico. Ao menos, era o que parecia, considerando que, entre fios elétricos, algumas casas altas e uma neblina espessa, me esforcei para conseguir enxergar algo.
O ar-condicionado do ônibus havia deixado o ambiente frio. O tempo já havia virado, e parecia que viria chuva por aí.
Tudo bem, eu já estava perto.
Às 9h28, aterrissei no meu destino. “Ainda é cedo”, pensei. Ouvi alguns meninos brincando em uma quadra de vôlei. À frente, havia uma rua de chão batido, por onde segui, obedecendo às orientações que havia recebido. Enquanto caminhava, fui passando os olhos de casa em casa, procurando o número certo. Não demorou muito. Estava logo ali. Pelo portão já aberto, pude observar uma certa movimentação. Parecia que o dia já havia começado agitado naquela casa. Me aproximei e ouvi uma voz gentil dizer:
— Pode entrar.

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