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56 QUILÔMETROS

  • 3 de dez. de 2025
  • 2 min de leitura

Atualizado: há 5 dias

Crônica de uma apuração

Por Gabriel Rosa, de Rio de Janeiro. 08 de dezembro de 2025


— Opa, tem mais um ponto depois desse, não tem?


O motorista, um homem de poucos sorrisos, aponta para um terminal — que eu ainda não havia visto — a poucos metros: 


— Ali dentro. 


Desço do ônibus, faço algumas anotações e volto a calcular o trajeto que ainda me falta. É um pequeno terminal — limpo e mal iluminado, onde algumas pessoas transitam com malas de mão. Outras, esperam sentadas a condução chegar. Em volta, há pequenos quiosques de alimentação, onde são vendidos, entre outras coisas, cachorros-quentes, caldos de cana, pastéis e biscoitos industrializados. 


Encontro um ponto de carregamento de celulares, tomado por uma grande propaganda de um site de apostas. “Claro”, penso. 


Faço uma pequena pausa de 10 minutos para carregar meu celular, que está em 79% e precisa continuar vivo até o fim do dia, que só terminará depois de mais algumas longas viagens de transporte público.


Minha internet, ao contrário, está nos seus últimos minutos de vida, com ínfimos 1,1 gigabytes, que também precisam sobreviver até o final da minha jornada. 


Mas o tempo é curto.


Atravesso um pequeno quarteirão e subo uma passarela de 50 degraus de escada, onde pessoas de pés apressados passam. Caminho mais alguns minutos. Sinto meu tornozelo esquerdo arder, devido a uma escolha equivocada de calçado. Chego, então, a um ponto de ônibus próximo a uma banca de jornal. 


Espero, pelo que parecem ser 5 minutos, a próxima condução chegar, e subo no 705P, sentido Bangu. 


O ônibus atravessa uma estrada estreita, cercada por pequenos estabelecimentos, liderados por pessoas que, curiosamente, parecem gostar do próprio nome. Eis uma lista: 


Wilma Manicure, Ribeiro Materiais, André Gráfica, Cris Modas, Cantinho da Vovó Teresa, Adega e Bar Thalys, Jardim Escola Vovó Eny e Marcelo Restaurante. 


Este último exibindo, orgulhosamente, uma caricatura sorridente do dono na entrada. 


De repente, o cenário urbano é substituído por uma estrada cercada de mata. Ao redor, há vales, e pode ler-se em um deles: “Jesus, o soldado da justiça”, ao lado de um versículo bíblico. Ao menos, é o que parece, já que, entre fios elétricos, algumas casas altas e uma neblina espessa, me esforço para conseguir enxergar alguma coisa. 


O ar-condicionado do ônibus deixa o ambiente frio. O tempo já virou, e parece que vem chuva por aí. 


Tudo bem, pois já estou perto. 


Às 9h28, aterrisso no meu destino. “Ainda é cedo”, penso, a entrevista é apenas às 10h. Sigo o ponto de referência indicado: uma quadra de vôlei. Sigo a rua, que está silenciosa , enquanto procuro o número certo. Bem, está logo ali. Avisto um portão aberto, de onde consigo observar uma certa movimentação. Em seguida, ouço vozes femininas. Me aproximo e uma mulher de olhos sorridentes diz:


— Pode entrar.



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