Estrada fantasma
- Greco Campos

- 30 de jun.
- 5 min de leitura
Atualizado: 30 de jun.
Já teve uma noite que nunca saiu da sua cabeça?

Essa memória é tão memória quanto uma memória pode ser. Era uma noite de 2023, uma sexta ou sábado. Não lembro se bebi (espero que sim) e, se as autoridades tiverem dúvidas, confirmo que foi depois do meu aniversário de 18 anos. Estava saindo da casa de um amigo no Recreio dos Bandeirantes e, querendo ir para a minha casa, pedi um Uber. Não me lembro a fabricante, o modelo ou a cor do carro que chegou. Abri as portas e dei boa noite para o motorista, mas não me lembro do seu nome, do seu rosto ou da sua voz. Me lembro do endereço do amigo e do meu, mas não posso revelá-los. "Poxa Greco, mas você não lembra do carro, do motorista e não pode falar do destino. Não tem nada que você se lembre? Que grande cronista que você é!". Primeiro que não sou cronista. Segundo que nenhum desses detalhes realmente importa para a história que eu vim contar.
Normalmente, eu ia aproveitar o momento para, depois de algumas horas offline, usar meu telefone. Porém, naquele dia em específico, estava com pouca bateria e decidi não arriscar: deixei o celular no bolso. Já passava da meia noite quando olhei pela janela a Avenida das Américas. Essa avenida é uma das principais vias que cruzam a Zona Sudoeste da cidade do Rio de Janeiro, se estendendo por 22 quilômetros descendo do Recreio para a Barra da Tijuca, antes de se transformar em Avenida Armando Lombardi e eventualmente desembocar na Ponte da Joatinga. De repente, o asfalto adquiriu um aspecto fantasmagórico. Pistas largas onde algumas horas antes milhares de carros passavam, indo e voltando, levando e trazendo, agora pertenciam a duas almas: o motorista sem nome, rosto e voz, e eu.
A noite era absoluta e o homem escolheu dirigir em silêncio completo, sem rádio. Meu mundo se tornou o ruído do motor, o som das rodas voando pelo asfalto e o ambiente que eu encarava pelas janelas, formado por shoppings e prédios semi-iluminados. Eu me senti na primeira cena de Mulholland Drive, filme de 2001, e em uma pintura de Edward Hopper. Estava terrivelmente sozinho, preso entre a realidade e o sonho, atormentado pelo cansaço.
Lendo tudo isso, você deve pensar que é uma grande bobeira. "Meu Deus! Você pegou um uber de noite! Grandes coisas!". Realmente, a história não é explosiva ou bombástica, mas me marcou pela estranheza da situação. Freud, nome quintessencial da psicanálise, escreveu um ensaio em 1919 sobre o "Das Unheimliche" (O estranho/O inquietante). No texto, o pensador discorre sobre o que é a sensação de algo "não familiar". Para Freud, esse termo era algo que passa dos limites do familiar. O mundo comum, rotineiro e esperado, mas distorcido em uma versão arrepiante de si mesmo. Naquele ambiente, o meu mundo familiar, rotineiro, se deturpou em uma versão surrealista e escurecida de si mesma, centralizada na figura daquele homem.
Minha cabeça se encheu de perguntas. Por que o homem não ligava o rádio? Será que ele pensava na mãe, na ex, na atual ou na amante? Estaria ele cansado que nem eu? Será que ele também se sentia sozinho?
O motorista, certamente, não pensava em mim, mas eu pensava nele. Entre nós dois existia um véu imaginário, uma teia de aranha que me impedia de tocá-lo e, assim, compreender tudo que passava na sua mente. Será que toda noite era assim? Existia a chance de eu, na minha timidez, ao me resguardar ao silêncio, causar agonia nele? Que assim não tinha contato com nada além do que estava apenas a frente de seus olhos? Eu podia ter perguntado, mas não o fiz.
Eu não me lembro do fim da viagem, apenas de que cheguei vivo, são e salvo. Os dias se passaram, se transformaram em meses que viraram anos. Na manhã seguinte aos acontecimentos essa memória ainda tinha um contorno quadrangular, em ângulos retos, mas as ondas do tempo foram comendo suas bordas e ela ganhou um outro formato, mais circular e desfocado.
Em algum momento do segundo semestre de 2025, quando surgiu a necessidade de escrever uma reportagem para uma disciplina da faculdade, aquela noite se acendeu de novo na minha mente. Não sei se era uma tentativa de reviver o “unheimlich” daquela corrida ou de me livrar de uma vez por todas, mas decidi escrever sobre motoristas: queria entender a cabeça deles, suas histórias, angústias e, principalmente, sua solidão.
No início de novembro, o motorista Flávio Furriel me levou para casa enquanto eu o entrevistava. Assim que entrei no carro, me posicionei no centro do banco de couro, apoiando meu braço nos assentos da frente para criar proximidade com o condutor, que só me via pelo vidro. Já passava das 22h quando eu perguntei se a solidão do seu trabalho afetava ele. “Realmente incomoda quando você está transportando um passageiro. Quando ele está em silêncio, a viagem fica longa, fica pesada, fica triste. Você pode ligar o rádio, pode fazer o que for, mas não adianta. Você sabe que não está sozinho, mas você está sozinho, entendeu?”. Eu penso no motorista sem nome, rosto ou voz.
A noite que engolia minha conversa com Flávio foi trocada por um sol forte do meio da tarde de um sábado quando entrevistei Rafael em seu carro, saindo de Copacabana rumo à Gávea. Passávamos em frente ao CIEP Nação Rubro Negra, pintado com as cores do Flamengo (tem necessidade?), quando eu fiz a mesma pergunta que já tinha feito a Flávio. Ele não parou muito para pensar. “Se me sinto sozinho, boto um podcast ou alguma música”. Eu penso no motorista sem nome, rosto ou voz.
Apesar de saciar o apetite, a reportagem não matou minha fome. Talvez eu não tenha me aprofundado tanto na parte da solidão? Será que tinha como a reportagem matar minha fome, ou será que eu vim com um carga emocional tão forte que o que quer que eu escrevesse não seria o suficiente para finalmente matar aquele dragão que tomou ninho na minha cabeça?
Finalmente, 2026. Eu encaro meu computador, torcendo para, de uma vez por todas, exorcizar a sensação daquela noite. É possível que outras pessoas se vejam nesse tema. Uma noite etérea que se recusa a sair da sua cabeça. Uma curiosidade tão forte de entender uma pessoa, uma profissão, uma classe de pessoas, que ela persiste nos blocos de nota e cadernos de pauta. Ou não, e eu continuo sozinho, desesperado para que meus leitores entendam o que despertou em mim naquela corrida.
2023, 2025 e 2026. Em que ano que eu conseguirei sair daquele carro, condenado a correr pela noite naquela estrada fantasma?

Comentários