top of page

O pequeno busólogo

  • Foto do escritor: João Antonio Lima
    João Antonio Lima
  • 30 de jun.
  • 6 min de leitura

Atualizado: 30 de jun.

Como um menino de 11 anos transforma o ônibus em uma viagem à diversão


Imagem: Greco Campos
Imagem: Greco Campos

O despertador toca. Você acorda, pega o celular e percebe que já são 5h, ou seja, hora de começar mais um dia cansativo. A rotina é a mesma de sempre: levantar da cama, tomar um banho, se arrumar e sair de casa. O destino é longe. Seu meio de locomoção é o ônibus, igual a outros 15 milhões de brasileiros, segundo dados do Censo Demográfico 2022: Deslocamentos para trabalho e estudo.  Ao chegar no ponto, ou você torce para que ele ainda não tenha passado, ou torce para que esteja perto. Quando finalmente aparece, o veículo já está lotado. Você sobe, esbarra nas pessoas e mal tem espaço pra passar pela catraca. O ambiente está abafado. O ar-condicionado não funciona. Parece um forno. A única coisa que motiva é a esperança de chegar logo no destino e poder sair daquele lugar.


Mas enquanto milhões de brasileiros enxergam os ônibus de forma negativa, há quem os veja com brilho nos olhos.


É o caso de Gabriel Nunes. Com apenas 11 anos, já se diz busólogo. Para ele, o barulho do motor é uma sinfonia e o trajeto é uma aventura. A demora do ônibus não importa. Ele aguarda ansiosamente pela chegada dos mais variados carros. E mesmo com a pouca idade, já entende muita coisa sobre ônibus. Conhece as empresas, os modelos, as linhas, os trajetos, praticamente tudo. O conhecimento e paixão são tão grandes que decidiu criar um canal no YouTube, que já atingiu mais de mil inscritos e conta com mais de 900 mil visualizações. Lá, ele posta diversos vídeos sobre ônibus.


Busólogos como Gabriel não são algo tão comum de se ver. Quem imagina que existam crianças apaixonadas por um transporte público? Para além disso, quantos adultos entendem esse sentimento? Como no livro O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, os adultos se preocupam apenas com números e com coisas que não importam. Se questionado sobre as maiores qualidades de um ônibus, um adulto, responderá a eficiência e a limpeza do veículo. Já Gabriel e outras crianças busólogas, responderão que o que importa são os caminhos percorridos, as paisagens vistas, a beleza do design de cada ônibus e o tempo que compartilham com seus pais. Seguindo o pensamento da Raposa, personagem do livro, os ônibus passam a ser especiais e mais do que apenas um meio de transporte, pois cativam essas crianças. Há um forte vínculo: esses grandes carros tornam-se pontes para um novo mundo. Pois, de certa forma, “o essencial é invisível aos olhos”.


Saindo dessa reflexão existencial, é crucial pensar: o que é a busologia? Para Gabriel, é um hobby: “É tipo gostar de ônibus, sabe?” Mais detalhadamente, a busologia consiste em estudar profundamente sobre os ônibus e sobre os assuntos relacionados a eles. E o que os busólogos estudam e o que fazem? Pesquisam trajetos, chassis, modelos, empresas, estatísticas sobre o transporte. Além disso, segundo Gabriel, “tem busólogo que desenha ônibus, que tem canal no Youtube, que cria sites para colocar suas fotos e vídeos, que cria empresas virtuais. Também tem os que modificam e criam ônibus para os jogos”.



A PAIXÃO


Na manhã do dia 8 de novembro e 2025, Gabriel estava mais uma vez no Terminal Gentileza, em São Cristóvão. O céu estava nublado, mas isso não o deixou triste. A empolgação era grande só por estar ali. Se pudesse, ficaria o dia inteiro. A todo momento, passam ônibus urbanos, BRTs e VLTs. É o lugar dos sonhos de um busólogo.


Aquela não era a primeira vez que ele saía de casa apenas para ver os ônibus. A paixão é antiga: começou quando era bem criança. Gabriel todo dia ia na casa da avó, onde brincava com os primos. Ele morava em Honório Gurgel e ela em Rocha Miranda. Para se locomover de um local ao outro, contava com o 711, que faz o trajeto de Rocha Miranda até Rio Comprido. Aquele ônibus tornou-se seu companheiro diário. Era o que o ligava aos momentos mais divertidos. Dali, passou a amar os ônibus.


Para ele, é difícil dizer o porquê do ônibus ser o automóvel favorito. Com um pouco mais de tempo para pensar, fala o que vêm a mente: “Tem mais diversidade e tem mais pinturas, modelos, carrocerias, etc.” Além disso, o ônibus permite ver duas coisas: a área de trabalho do motorista e o funcionamento da cidade. Gabriel adora observar o motorista pilotando, ver como é o volante, o painel, coisas que não são possíveis de serem vistas em outros transportes públicos.


Além disso, é mais difícil, quase impossível, assistir o movimento das pessoas pela cidade no trem e no metrô, por exemplo. O ônibus se diferencia desses dois de várias formas. Ele anda nas ruas. Pelas suas janelas, é possível ver tudo que está ao redor. Os comércios, o fluxo de pessoas, os carros. Cada ônibus pode partir do mesmo lugar para chegar ao mesmo destino, mas fazer caminhos diferentes. Em uma viagem de ônibus, você explora lugares que nunca viu do Rio de Janeiro.



ENTRADA NA BUSOLOGIA


Gabriel conheceu a busologia apenas esse ano. Mesmo que já amasse os ônibus, não fazia ideia do que o termo significava. Descobriu por acaso. Ao pesquisar sobre os ônibus na internet, deparou-se com o termo. Por curiosidade, decidiu ver o que era.


A partir daquele momento, ele passou a se intitular busólogo. Os destinos tornaram-se mera formalidade. Não se importa mais para qual lugar vai, apenas qual ônibus o levará até lá. Ele quer sempre pegar um diferente, para, cada vez mais, conhecer novos modelos.


Atualmente, um dos passatempos preferidos dele, como busólogo, é observar e fotografar os veículos. Ele sai de casa somente para isso. Seja no ponto, na rodoviária ou até mesmo no Terminal Gentileza, ele chega e fica ali por um bom tempo. Não quer pegar nenhum ônibus, nem chegar em lugar nenhum. Está ali apenas na esperança de conhecer novas linhas e conseguir registrar as favoritas, como a 324, que liga Ribeira à Candelária.


Gabriel também vai até a papelaria para imprimir o molde das suas miniaturas. Já são pelo menos dez, de diferentes linhas e empresas. Também está sempre pesquisando e estudando. Gosta de saber sobre as empresas, as linhas, os carros das frotas. Pesquisa se uma empresa ainda existe, se passou por renovação, qual o trajeto de ônibus. Muitas das informações ele recorre aos pais e à avó, que o apoiam muito. Inclusive, por vezes, os papéis se inverteram. Eles que precisaram pedir informações a Gabriel. Em conversa com a equipe de reportagem da Grilo no Terminal Gentileza, ele explicou sobre diversos modelos de ônibus que lá estavam e contou também a história do BRT.


O que não aprende dentro de casa, ele acha nos fóruns e grupos de busólogos. Desde que entrou nesse mundo, Gabriel já entrou em muitas comunidades. Seja no Facebook, no Instagram, ou até mesmo nos comentários do site Ônibus Brasil. A troca de informações é grande e todos estão ali para aprender. Além disso, é um espaço para o surgimento de novas amizades. Como seus amigos da escola não são fãs, apenas neste fórum Gabriel consegue fazer amigos para falar sobre ônibus. “Eu me sinto feliz assim, conversando com outras pessoas sobre busologia”. No último ano, ele participou de um encontro de busólogos que rolou durante a Rio Bus Expo, evento que reúne uma exposição de diversos ônibus de diferentes épocas e modelos. Acompanhado do pai, Gabriel fez alguns amigos lá também.


Quando perguntado do porquê gostar de ônibus e da busologia, ele respondeu: “Como eu não vou gostar e me interessar por algo que faço todo dia?”. Essa resposta provoca reflexões. A rotina dentro do capitalismo é tão sufocante que não conseguimos nem prestar atenção em algo que é essencial na nossa vida. O sucateamento do serviço também é fator importante nesse processo.


Com isso, ele entende que a busologia é importante para conhecer a história e cultura do Rio de Janeiro. Torna-se possível saber quais são os deslocamentos que ocorrem na cidade. São pessoas indo ao trabalho, ao lazer. O ônibus existe para levar as pessoas de um ponto ao outro de forma coletiva e universal. Além disso, dá para aprender qual local mais recebe ônibus e o porquê, qual é o local em que mais pessoas pegam ônibus com destino a outros certos lugares. A busologia estuda todas essas questões que envolvem as políticas da cidade.



GABRIEL DO BUSÃO


O canal do YouTube “Gabriel do busão” já tem mais de 600 vídeos. O mini busólogo cria conteúdo com muita frequência e o cardápio é bem variado. O que ele mais posta são “edits” de diversos ônibus. Há também vídeos longos em que ele mostra como é a movimentação de um ponto de ônibus, como é o interior de um modelo e qual seu trajeto ou gameplays do jogo “Proton Bus”. Nos comentários sempre há muita interação com seus inscritos. Eles fazem pedidos de vídeos especiais, geralmente envolvendo suas linhas favoritas.


Em um de seus vídeos mais acessados, Gabriel traz a experiência de andar na linha 324, uma de suas prediletas. O vídeo é gravado em primeira pessoa para que o telespectador sinta-se como o passageiro do transporte. Já são mais de 3 mil visualizações.


A ideia de criar o canal veio enquanto Gabriel assistia o vídeo de outro busólogo.  O youtuber gravava apenas sobre Madureira. Com isso, o menino pensou que poderia fazer um canal para falar da Ilha do Governador, local onde mora. A intenção é compartilhar o conhecimento adquirido para novos integrantes da busologia, para que a comunidade cresça cada vez mais no Brasil.

Comentários


Não é mais possível comentar esta publicação. Contate o proprietário do site para mais informações.

Receba o conteúdo da revista grilo direto no seu email.

Assine nossa newsletter.

Email enviado!

bottom of page