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Perigosa

  • Foto do escritor: Gabriel Rosa
    Gabriel Rosa
  • 30 de jun.
  • 4 min de leitura

Atualizado: 30 de jun.

Uma história tradicionalmente brasileira


Imagem: Greco Campos
Imagem: Greco Campos

Há 30 anos, quando o ônibus deixou a rodoviária de Belo Horizonte, Luciana Vasconcellos carregava apenas uma pequena mochila e uma malinha de mão. Uma verdadeira proeza para uma jovem de 17 anos: sem se despedir da família, decidiu trocar as ruas do bairro de Jatobá, na periferia da capital mineira, pelo calor carioca.


No dia em que desembarcou no Rio de Janeiro, começou uma vida nova. Vieram mudanças de endereço, de trabalho e de cidade. Entre idas e vindas, porém, uma coisa permaneceu a mesma:


— Puta. A vida inteira fui puta.


Ou quase inteira. Antes da mudança de lar, do ingresso na prostituição e da transição de gênero, Luciana era, como ela própria define, uma criança viada. Uma criança pobre, negra, viada e extremamente inteligente. Aos oito anos, já andava de cabeça erguida enfrentando os valentões da escola. “Eu sempre fui a perigosa do rolê.” Na infância, quando os colegas tentavam desprezá-la por seu jeito “feminino”, com comentários como “ela é bichinha”, a resposta vinha materializada em um punho fechado, direto no alvo, seguido das palavras:


— Sou bichinha mesmo.


Filha de uma rígida cantineira escolar e de um sapateiro, Luciana cresceu em um lar marcado pela violência. Em casa, via, desde muito cedo, seu pai bater em sua mãe. Do irmão mais velho, sofria agressões por seus traços delicados. “Ele era uó.” Havia aprendido, ainda jovem, a inventar sua própria estratégia de sobrevivência: “Eu cresci com a violência na minha vida. Eu entendi que o jeito de reivindicar alguma coisa era através dela.”


Aos dez anos, adotou, numa brincadeira na escola, o nome de Roseclair. Lá no fundo, não era apenas uma brincadeira. A coisa ficou séria sete anos mais tarde, quando, sem aviso à família, embarcou em um ônibus rumo ao Rio de Janeiro — um  mundo que, até então, conhecia apenas pelas novelas que assistia na tevê. “Isso aqui deve ser mentira”, pensava, deslumbrada.


Com a ajuda de Marcele, uma travesti carioca, mudou-se para um apartamento no bairro de Copacabana, na Zona Sul do Rio de Janeiro. O primeiro dia na casa nova foi de grande empolgação. Luciana montou-se, com direito a uma peruca Chanel preta e uma tiara, que havia ganhado de sua nova colega. “Presente de madrinha”, disse Marcele, antes de levá-la para fazer seu primeiro programa. “Foi um close”, lembra Luciana. “Eu estava com euforia e adrenalina, me sentindo a mais bela de Copacabana. Não tinha para ninguém.”


Da primeira suruba, em sua estreia como puta, anos se passaram e, dali em diante, a vida seguiu seu curso: foi aprendendo o passo a passo da profissão. “Fui me tornando uma profissional do sexo. Por opção. Não fui aquela travesti que foi expulsa de casa. Eu não sofri essa transfobia que a grande maioria sofre hoje.” Conquistou uma clientela fiel, que a tratava como uma deusa. “Os clientes pagam milhões.” E, afinal, quem eram os clientes? Bem, Luciana define em única palavra: “Homens.” De todas as idades: “Preto, branco, pobre, rico, casado, solteiro, viúvo, agressor, carinhoso.” Todos procuravam seus serviços.


Com o sucesso de seu trabalho, Luciana pôde bancar algumas aventuras pelo país e pelo mundo: conheceu diversos estados do Brasil e fez contatos com bichas de todas as regiões. Morou na Europa por dois anos, trabalhando, claro, como puta. “Foi penoso”, lembra. Lá, correu da polícia, foi perseguida por cafetinas, tentou ir embora. Quando retornou, deportada, em pleno verão, decidiu que era hora de garantir alguns pequenos luxos. Tinha 86 mil reais na conta e vontades de sobra. Colocou peito, nariz, comprou uma casa e ainda sobrou uma graninha para garantir uma Honda Bis na garagem: “Fiz tudo que tinha vontade.”


De volta ao Brasil, Luciana continuou trabalhando nas ruas, mas focada nos estudos. “Eu queria estar dentro para poder bater de frente. Falar na mesma linguagem para derrubar.” Ela participava de movimentos sociais e entrou para o PreparaNem, um pré-vestibular gratuito voltado à comunidade LGBTQIAPN+. Realizado na Lapa, o projeto foi o pontapé inicial da CasaNem, ONG que hoje acolhe membros da comunidade queer em situação de vulnerabilidade social. “Comecei a entender que a educação estava fazendo uma diferença na minha vida e poderia fazer na vida de outras pessoas trans.” Ao lado de Indianarae Siqueira, sua amiga, colaborou com a fundação da CasaNem, em 2016.


Enquanto conversava com a equipe da grilo, em um restaurante, Luciana observava a movimentação de alguns casais ao redor. “As mulheres, quando estão acompanhadas, ficam preocupadas com a gente e a reação dos maridos”, falou, depois de um momento de reflexão. “Antes de olharem pra gente, os maridos olham para as mulheres para verem onde elas estão olhando. Muito olhar, muita cantada de macho hétero, alfa.”


— Todas essas questões me motivaram a entender o porquê que a sociedade tanto me assassina, a sociedade tanto me violenta, sendo que ela me consome com prazer absurdo.


“Eu sou uma pessoa que, para acessar a sociedade, é conflituoso. Lidar com a minha vida e a dos outros, com o mesmo sofrimento que eu sofro, é muita carga”, diz Luciana. Essas e outras questões a levaram a pedir demissão, em meados de 2025, do cargo de assistente administrativa que ocupava na CasaNem. Na época, sentiu que precisava de um tempo para cuidar da própria saúde mental. “A gente é muito estudada, a gente vira muita matéria de tese, e eu continuo com fome, com sede. Cansada.”


Crescida em um lar com quatro irmãos, Luciana hoje vive sem contato com eles. Há três anos, após a morte da mãe, rompeu laços com sua família por conta de uma disputa financeira. Seu pai morreu quando ela tinha 11 anos. “Uma das revoltas com a minha família foi que ela me fez passar tanto tempo da minha vida aprisionada em um lugar totalmente higienizado.”


Vez ou outra, Luciana ainda faz alguns programas, por meio de aplicativos de relacionamento, como o Grindr. “A única profissão que eu nunca vou deixar de exercer é a prostituição. Ela me ensinou muito e eu sei que posso ganhar dinheiro com ela.” Além disso, ela também tem produzido conteúdos eróticos para plataformas digitais.


Naquela quinta-feira fresca e ensolarada, 20 de novembro, a previsão prometia 35 graus, e Luciana se preparava para desfilar na 30ª Parada LGBTQIAPN+ em Copacabana. “Segunda, terça e quarta, ressaca pura”, riu. Com seu biquíni preto e brinco de miçangas coloridas, estava pronta para um banho de mar na Praia do Flamengo após a entrevista, que terminou com um de seus mantras habituais: “Eu não vim para bagunça nesse universo. Minha missão aqui é muito forte.”

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