Posso me identificar?
- Equipe Grilo

- 30 de jun.
- 15 min de leitura
Atualizado: 30 de jun.
Três histórias, uma interseção: o dia em que as vidas de Jorge, Nívia e Joseane mudaram para sempre

I
O homem faz um sinal com a cabeça, perguntando se já poderia começar a falar.
— Meu nome é Jorge Roberto, tenho 60 anos e moro lá em Costa Barros.
Não muito tempo antes, ele havia chegado no Parque Madureira com banners e cavaletes embaixo do braço. Com um pouco mais de 2 metros de altura, Jorge, um homem negro retinto e careca, usava óculos de grau, uma camisa cinza escura, calças jeans e um grande relógio preto. Ele se sentou em um banco de pedra, adequadamente sombreado em um dia de tanto calor. Tão forte quanto a intensidade do sol, às 13h de uma quarta-feira, o vento golpeava como se em provocação. Mesmo assim, não foi o suficiente para tirar o bom humor de Jorge, que parecia em casa.
— Na minha infância eu trabalhava aqui no Mercadão de Madureira. Sempre rodei. Madureira, Costa Barros, Acari, andava por tudo.
Aos 15 anos, Jorge entrou para o Senai, no curso de soldagem, e parou de vender no Mercadão. Já adulto, se tornou soldador elétrico. Trabalhou mais de 10 anos na Petrobras, nos estaleiros do Rio e hoje em dia, já idoso, deu baixa na sua aposentadoria. Além da soldagem, Jorge também é bacharel em Direito pela Universidade de Nova Iguaçu, onde se formou em 2007 aos 42 anos de idade.
Ele tem dois filhos: Vinícius e Roberto, o mais velho e o mais novo, respectivamente. Como foi alguém que trabalhou desde jovem, ele não queria o mesmo destino para os filhos até que chegasse o momento certo. Sempre fez um esforço extra para garantir que os dois meninos estudassem em colégios particulares e só os colocou em colégios públicos quando absolutamente necessário.
II
Às 10h06 da sexta-feira, 31 de outubro de 2025, seis mulheres entraram em uma casa de paredes vermelhas e desenhos floridos no quilômetro 32 do bairro Bela Vista, em Nova Iguaçu, região da Baixada Fluminense. Joseane Martins, de 56 anos, havia preparado uma mesa com bolo de fubá e café para receber suas convidadas. Assim que se acomodaram numa pequena sala, Jô — como é carinhosamente conhecida — deu início aos informes e, apesar da chuva e da queda de energia elétrica, não deixou sua fala ser interrompida em momento algum. “Aqui é danado pra faltar luz”, comentou.
Jô, uma mulher de longos cabelos grisalhos e olhos simpáticos, vestia, naquela manhã nublada, uma blusa azul que combinava com a bermuda da mesma cor. Paraibana, mudou-se para o Rio de Janeiro aos 15 anos, ao lado de sua avó. Da terra de origem, no entanto, carrega muito pouco além do sotaque: “Foi aqui no Rio que fiz a minha vida, minha história”. Casou-se aos 17 com o primeiro de seus três maridos. Teve três filhos: Daniel, Diego e Davi. Trabalhou capinando quintal, passando roupas e atendendo em um salão de beleza. Aos 55 anos, concluiu a graduação em Serviço Social.
Naquela semana particularmente exaustiva, quando outubro anunciava seu fim, os pensamentos de Jô estavam longe. Escondidos atrás dos óculos de aro preto, seus olhos disfarçavam, mas, no fundo, não parava de pensar nos filhos. Ao relembrar uma palestra de que havia participado dias antes, falou às mulheres reunidas no cômodo:
— Não é pra gente abaixar a cabeça diante do abutre.
III
Ao andar pelas ruas de pedra do bairro de Jardim Iguaçu, também localizado em Nova Iguaçu, nota-se certo silêncio. O dia ainda está começando, são somente 10h de um sábado. Mas, ao entrar em uma das ruas sem saída, o silêncio dá lugar à música "Sonho Meu", de Dona Ivone Lara, que escapa pelas frestas do portão branco de uma casa. Atrás dos muros verdes, de tom quase neon, quem escuta a melodia é Nívia Raposo, de 50 anos. Em meio às suas plantas e flores, ela curte o som acompanhada de sua mãe, que observava, em silêncio, a entrevista.
Filha de nordestinos, Nívia é mãe de dois meninos: Rodrigo e Thiago. Em seus raros momentos de lazer, ela gosta de estar com a família, ouvir música e cuidar das plantas. Criada em terreiro, sua ligação com as plantas é antiga e profunda: “Em terreiro sempre tem muita planta. E eu tenho uma coisa em estar com a mão na terra, estar plantando.” Algumas plantas estão em vasos especiais, que simbolizam sua família. Um conjunto de vasos tem formato de girafa. São três: uma maior, que representa Nívia, e outras duas um pouco menores, que representam seus filhos.
Formada em História pela UERJ, Nívia dificilmente consegue ficar muito tempo em casa: “Estou sempre militando, até nos finais de semana. No movimento social, a gente não para nunca. É 24/7.”. Seus dias são muito movimentados. Sempre busca articular com o movimento negro, com as mulheres do PT e com ambientalistas. Ela sente a necessidade de sempre estar participando de muitas lutas, pois considera que somente assim se conquista algo.
— É tudo por meio da luta. Nada foi pedido com flores, abraços e carinho. Porque ninguém vai dar isso para a gente.

A véspera
I
A sexta-feira do dia 27 de Novembro de 2015 foi típica na casa de Jorge. De manhã, Roberto, seu filho mais novo, foi para o colégio público Murilo Braga, onde cursava o 1º ano do Ensino Médio. Na saída, comprou uma blusa e uma calça para usar no fim de semana. À noite, após o trabalho, Jorge encontrou o filho empolgado com as roupas que comprou. Recentemente, “o homem” — modo carinhoso como Jorge chama Roberto —, tinha conseguido seu primeiro emprego em um atacadão em Guadalupe, trabalhando das 13h às 17h. Os dois eram felizes. Vinícius, seu filho mais velho, tinha 17 anos e morava com sua mãe e ex-esposa de Jorge, Jozelita da Souza.
Na noite do dia 28, Roberto avisou para seu pai que ia sair com amigos, todos vizinhos, para comer alguma coisa em comemoração ao menino ter conseguido seu primeiro emprego. Juntos, os dois desceram até o portão, onde um carro e uma moto dos amigos de Roberto já esperavam o jovem. Contando com Betinho, eram 5 meninos, todos abaixo dos 25 anos. Jorge olhou para o grupo e brincou:
— Vocês são ruins de roda à beça.
Sem maiores preocupações, ele voltou para casa. A vida seguiu, e mais ou menos 40 minutos depois sua campainha tocou.
— Jorge, vai lá embaixo que aconteceu alguma coisa com os meninos.
II
Quando estacionou seu carro em um posto de gasolina próximo à Avenida Brasil, em 21 de maio de 2018, Jô estava uma pilha de nervos. Em um momento de coragem, desceu do veículo e caminhou até uma viatura da polícia, que aguardava sua chegada. Diante dos homens fardados, falou sem perder a marra:
— Eu não vou sair daqui enquanto vocês não soltarem o meu filho.
Horas antes, Jô recebera um telefonema: Davi, seu caçula, havia sido abordado por milicianos e feito refém. O motivo era Daniel, seu filho mais velho, que, quando criança, sonhava em ser policial, mas agora trabalhava para o tráfico de drogas. Como forma de represália, os milicianos decidiram mandar um recado por meio do irmão mais novo. Para libertá-lo, exigiram o pagamento de 11 mil reais.
Jô não pensou duas vezes antes de enfrentar aqueles homens. A quem perguntasse, ela diria que Davi era o “seu gordinho”, sua alma gêmea. “Calmaria e tempestade, igualzinho a mim.” Por ele, seria capaz de qualquer coisa.
Depois que o dinheiro foi entregue, seu filho foi liberado, e ela respirou aliviada. Do pouco de memória que driblou o nervosismo do momento, Jô se recorda de ouvir uma única frase:
— A gente ainda vai pegar teu filho.
III
Na sexta-feira, dia 16 de outubro de 2015, Nívia estava feliz. A sorte finalmente sorriu para Rodrigo, seu filho, e ele conseguiu passar o final de semana em casa. À época, era soldado do Exército e toda semana havia um sorteio para saber quem ficaria de plantão. Depois de muito tempo sendo escolhido, dessa vez, o computador esqueceu seu nome. Quando chegou em casa, de manhã, Nívia conversou com ele, como faziam sempre. À noite, ela percebeu algo estranho: Rodrigo, que não bebia, experimentou uma Skol Beats com seus amigos na praia. Na volta, soltou pipa com o irmão e foi dormir. Nívia percebeu um semblante cansado em seu rosto. “Parecia que ele estava carregando um mundo nas costas.” Rodrigo estava preocupado com o futuro de seus amigos.
Assim era Rodrigo: amoroso, empático, alegre, brincalhão e de muitos amigos. Sempre fazia o possível para ajudar alguém. Por isso, era muito amado. Além disso, participava de tudo quanto é evento. Seu jeito intenso, bondoso e carismático conquistava qualquer um. Naquele dia, enquanto falava com a mãe, conversava com alguns amigos.
No dia seguinte, Nívia foi até a casa de sua mãe, em Jardim Iguaçu, para fazer um trabalho da faculdade pelo computador da irmã. Rodrigo saiu para cortar o cabelo e ao avistar os amigos jogando bola, os avisou que participaria depois. Enquanto estava concentrada em seus estudos, Nívia recebeu uma ligação de Rodrigo: ele queria saber quando a mãe voltaria, para poderem comprar um novo celular, pois o dele havia sido roubado. Pouco tempo depois, seu celular tocou novamente. Dessa vez, era Thiago, seu filho mais novo. O menino estava desesperado:
— Mãe, mataram o Rodrigo.

O abutre ronda
I
— Foi a cena mais triste da minha vida.
Jorge colocou uma camisa, desceu e andou pela rua até avistar, não muito longe, o carro em que seu filho havia partido não tinha nem uma hora, agora completamente crivado por marcas de tiro. Foram feitos, em plena via pública, mais de 100 disparos. Dentro do carro, Roberto e os outros quatro amigos estavam mortos. Seu filho, reparou Jorge, usava a roupa que tinha comprado no dia anterior. Ainda sem reação, ele sentiu uma mulher bater em seu ombro, desesperada, perguntando se o filho dela, Eduardo, estava ali dentro. Ele tinha ficado tomando conta da irmã e não saiu para lanchar. Infelizmente, Roberto não partilhou da mesma sorte.
Jorge ficou na cena do crime até a perícia chegar, com o coração destroçado. Depois, foi levado para a 39ª Delegacia de Polícia, na Pavuna, onde iria fazer o registro de ocorrência e procurar mais informações sobre o que aconteceu. Lá, ele descobriu que seu filho havia sido vítima de uma emboscada enquanto voltava para casa: os policiais haviam se escondido em uma oficina próxima e, quando o carro com os jovens passou, a chacina começou. Supostamente, o veículo deles seria parecido com o de ladrões que teriam assaltado um caminhão de carga mais cedo, o que prontificou os disparos da polícia. Chegando lá, Jorge encontrou os quatro assassinos de seu filho:
— Eles estavam rindo. Os quatro estavam rindo.
II
Na manhã seguinte à negociação com os milicianos, Jô sonhou com o filho e acordou tomada por um mau pressentimento. “A ligação de mãe, sabe?” Para aliviar a preocupação, telefonou para Daniel, que almoçava com amigos e atendeu com certo nervosismo. “Calma, eu tô resolvendo um negócio aqui”, ele falou. Antes do fim do expediente no salão onde trabalhava como instrutora capilar, Jô sentiu o coração gelar e retornou para casa. “Meu filho não tá bem”, dizia para si mesma.
No fim da tarde, seu telefone vibrou com inúmeras mensagens enviadas do número dele. Uma delas dizia: “Vai pro hospital que teu filho rodou.” Do outro lado da linha, usando o celular de Daniel, estavam os milicianos que Jô encontrara na noite anterior.
Por volta das 15h, eles invadiram a casa onde o filho estava e o torturaram e assassinaram, junto com outros seis homens. Daniel foi colocado nu em um formigueiro e depois morto. Testemunhas afirmam que não houve troca de tiros. Tinha 21 anos e uma filha de sete meses. “Foi o pior dia da minha vida. Foi o dia que meu mundo desabou. Que eu fui amputada pela primeira vez.”
No dia 26 de setembro de 2022, quatro anos após a morte de Daniel, Jô sentiu a ferida ainda não cicatrizada voltar a sangrar. “O raio cai sim duas vezes no mesmo lugar.” Naquela manhã, enquanto participava de uma reunião no Centro de Referência Social (CRAS), onde era estagiária, seu telefone tocou. Era um amigo de seu filho.
— Tia, mataram o Davi.
O jovem, de 21 anos, foi atingido por um tiro nas costas durante uma operação policial e morreu. Saía de um baile funk no momento dos disparos. Assim como o irmão, Davi também havia trabalhado para o tráfico de drogas. Segundo a mãe, porém, ele já tinha deixado essa vida e passado a trabalhar como mototaxista, com uma moto que ganhara dela.
Entre as últimas lembranças que guarda do filho está um almoço que compartilharam ao lado da esposa e da filha dele.
Ao fim da ligação, Jô ficou em completo choque. “Meu mundo desabou. Eu não sabia o que falar, eu não sabia o que fazer.” Diante da equipe de trabalho que a cercava, só conseguiu dizer:
— Olha, eu acho que aconteceu de novo.
III
Uma semana antes de sua morte, Rodrigo foi ameaçado por um vizinho, que era policial e miliciano. O homem o abordou e afirmou estar ciente de que o menino assaltava pela área, mas que poderia ficar à vontade, desde que pagasse 500 reais por semana. Era um convite à milícia. Os moradores do bairro sabiam que o menino não assaltava, mas como ele conhecia tudo e todos pela área, a milícia considerava que ele exercia uma certa liderança, e, por isso o convidaram. Mas ele não aceitou. Era muito querido, não podia fazer uma coisa dessas. Assim, o miliciano disse: “Então, eu vou matar você”. Sem cambalear, Rodrigo respondeu:
— Prefiro morrer.
A ameaça não demorou a se concretizar. No dia 17 de outubro de 2015, Rodrigo Tavares, de 19 anos, foi assassinado. Após cortar o cabelo, ele voltou para casa. Quando estava saindo, foi surpreendido por um carro. De dentro, saiu um homem negro, o qual não conhecia. Ele dizia a mesma coisa que o vizinho: “É você que está assaltando, né?” Rodrigo mal teve tempo para responder. O homem sacou a arma e começou a atirar. O menino correu, mas, infelizmente, não evitou a bala. O tiro pegou nas costas. Rodrigo caiu cerca de dois metros depois. Cruelmente, ainda foram disparados tiros no peito, para acabar com qualquer chance de sobrevivência. Thiago, com 12 anos, havia acabado de entrar em casa. Quando olhou para a rua, viu Rodrigo estirado no chão. Pulou direto do segundo andar da casa para chegar ao irmão. Naquele instante, Rodrigo ainda estava vivo. Thiago segurou a mão dele e pediu para ele levantar. Rodrigo até tentou, mas em vão. Faleceu ali, nos braços do irmão.
Ao receber a notícia, Nívia ficou desnorteada. Não conseguia acreditar no que havia ouvido. No caminho até o local da morte, pensou ter visto Rodrigo, mas era apenas um menino parecido. “Eu já ia falar ‘Pô, tu deu um susto no seu irmão’.” Quando chegou, a rua estava lotada. Havia muita gente passando mal e desmaiando. Os amigos gritavam muito. Ali, Nívia percebeu que a dor não era só dela. “Aquelas pessoas ali também foram mães dele, também foram pais dele”. O baque foi forte. Ela tinha Rodrigo não apenas como filho, mas como amigo e companheiro. “Era meu fechamento”. Conversavam sobre tudo e estavam sempre brincando. Tudo isso faz muita falta a Nívia. A traumática despedida de seus filhos a marcou muito. “Meus filhos sofreram tanto”. Ver aquela cena a fez ir à luta.
— É insuperável a perda de um filho dessa forma tão violenta.

A flor também é ferida aberta
I
— Pode passar o tempo que for. Eu nunca vou esquecer.
Os dias e semanas seguintes foram de absoluto choque e revolta em Costa Barros e no Morro da Lagartixa. No dia do crime, os quatro policiais responsáveis foram dispensados da corporação pelo seu comandante, mas Jorge não veria nenhum tipo de paz até que fossem propriamente responsabilizados. Depois de muitos anos, vieram resoluções. Dos quatro, três policiais foram condenados e presos pelos crimes.
Infelizmente, outros entes queridos se foram antes de verem os responsáveis pela chacina serem punidos. Jozelita, ex-esposa de Jorge, morreu de tristeza pouco mais de um ano depois da morte de Roberto. A foto dela, com uma pequena descrição, estava entre os muitos cavaletes e banners que Jorge levou para o Parque Madureira no dia da sua entrevista. No ano seguinte à morte do filho, os dois fizeram acordos judiciais para receberem indenizações pela execução de Betinho, mas Jozelita morreu antes de receber o dinheiro.
Nessa época, o psicológico de Jorge também declinou consideravelmente. Ele relata que já pegou seu carro pensando em não voltar mais. Parou o veículo na ponte Rio-Niterói, em desespero, pensando em saltar.“Ele era meu homem de confiança. Eu levei a mãe dele na maternidade, busquei ele na maternidade e tive que enterrar ele também.”
Entrar no movimento de vítimas e familiares, foi, para Jorge, um de seus auxílios psicológicos naqueles tempos de tanta dor. Em seu relato, afirma que não pediu para entrar no movimento, mas foi lançado lá do mesmo jeito. Foi lá, conversando com outros pais e mães, que se fortaleceu e conseguiu fortalecer outros. Jorge lamenta que Jozelita não conseguiu ter o mesmo tipo de amor antes de partir.
— Eu ainda sou um pai presente na vida do meu filho. Enquanto eu estiver aqui na Terra, com certeza ele será lembrado para sempre.
II
— Se não fossem elas, acho que eu nem tava aqui. Aqui é onde eu me cuido.
Ainda nas primeiras horas da manhã, as notificações no celular de Jô não param de chegar. Desde que fundou, em 18 de outubro de 2018, o coletivo “Filhos nos braços do pai”, ela recebe diariamente mensagens de mulheres enlutadas em busca de refúgio. Seu projeto acolhe familiares de vítimas assassinadas por policiais e milicianos no Rio de Janeiro. É uma irmandade: riem e choram juntas.
A paraibana viu isso de perto: mães que enterraram até cinco filhos. Outras ainda buscam os corpos de desaparecidos. No extremo, algumas sucumbem à dor, assombradas pela ausência. “Eu já perdi várias mães também, que não aguentam a perda.”
Jô, é claro, não passou ilesa dessa dor. Após a perda de Daniel, desenvolveu um quadro de depressão profunda, que a debilitou a ponto de não conseguir levantar da cama. “Estava desolada, só queria morrer, sumir do mundo.”
Hoje, faz terapia duas vezes por semana e dedica cerca de 30 minutos por dia à meditação. Toma aproximadamente dez medicamentos para depressão, ansiedade e diabetes. Mudou-se da casa antiga, pois era difícil conviver com as memórias dos filhos. No último ano, precisou se afastar do trabalho após uma crise de pânico. Durante o expediente, sentiu a boca ficar seca e o corpo gelar. Quando o chefe a chamou para uma conversa, percebeu que precisava de uma pausa.
Quando retornava de uma viagem a Brasília, em 28 de outubro de 2025, Jô recebeu a notícia da chacina que ocorreu na Penha e no Alemão. Na manhã daquela terça-feira, sob as ordens do então governador do Rio, Cláudio Castro, policiais realizaram uma operação nas comunidades da Penha e do Alemão que terminou com 122 pessoas assassinadas. Mães e familiares passaram a tarde reconhecendo os corpos, que foram empilhados a céu aberto, formando um tapete humano. “Trouxe todo o sofrimento que a gente já passou. Aquele tapete humano foi a coisa mais horrível do mundo. É difícil a gente compreender e entender.”
A investigação do caso de Davi segue em segredo de Justiça, e o caso de Daniel será reaberto em breve. Até o fim desta reportagem, nenhum dos assassinos dos filhos de Jô havia sido condenado.
Para ela, a falta de oportunidades rouba os sonhos de jovens das periferias. “O lugar que eles matam mais é na favela. São negros, periféricos, favelados. Meus filhos eram tudo isso.”
— Eu vou lutar pra viver. Eu não vou abaixar a cabeça para que o sistema me engula. Sou a voz daqueles que calaram.
III
O enterro de Rodrigo estava lotado. Pessoas de diversos lugares apareceram na cerimônia. Foram muitas homenagens. No dia do velório, uma freira recomendou que Nívia procurasse o Centro de Direitos Humanos (CDH). Ao chegar lá, conheceu a irmã Yolanda, gestora do centro, que na época tentava captar recursos para o Projeto Litigância, com o objetivo de levar justiça a famílias da Baixada Fluminense. Desse momento em diante, Nívia passou a integrar diversos projetos e movimentos sociais. “Eu fui jogada, empurrada para esse movimento”. Atualmente, ela é coordenadora do coletivo Movimento de Mães e Familiares de Vítimas da Violência Letal do Estado e Desaparecidos Forçados, além de pesquisadora e “mãe referência” no projeto EnfrentAção. Ele tem por objetivo garantir “os direitos à verdade, à justiça, à não repetição e à memória, por meio da escuta”. Há também uma grande preocupação com a saúde mental.
Ela trabalha atendendo e auxiliando mães de vítimas da violência do Estado. Está sempre aconselhando, acolhendo e também instruindo onde essas mães, geralmente da Baixada, podem encontrar ajuda. O que fazer quando se perde um filho para a violência do Estado? A quem recorrer? Nívia entende que há pouca informação disponível. Além disso, na Baixada, o medo toma conta. A região é cercada pela milícia. Quase ninguém quer denunciar as violências do Estado. Há um grande receio com possíveis retaliações. Como é alguém que enfrenta o problema de frente, Nívia tornou-se uma referência de força. “A força do ódio faz a gente ter coragem. Eu já perdi tudo. Você perde um filho e perde o medo de tudo.”
Ninguém foi responsabilizado pelo assassinato de Rodrigo. Nívia só teve acesso ao inquérito há pouco tempo. As gravações feitas pela câmera da vizinha nunca foram disponibilizadas. O mandante do crime até foi chamado para depor, mas, obviamente, negou envolvimento. Uma pessoa, com muita coragem, ligou para o disque-denúncia e revelou quem eram os envolvidos no assassinato. O miliciano que ameaçou Rodrigo foi hostilizado pelos moradores do bairro. Em todo lugar que chegava, escutava gritos de “Assassino!”. A pressão popular foi tão forte que ele fugiu do bairro. Até onde Nívia sabe, ninguém foi preso, todos conseguiram fugir. “Não há boa vontade política para os casos andarem. A maioria acaba arquivado”, relata.
A angústia de Nívia se traduz em números: o estado do Rio de Janeiro ocupa o segundo lugar na concentração de mortes por violência policial em todo o país, atrás apenas da Bahia. Os dados são da Rede de Observatórios da Segurança. De acordo com a pesquisa, policiais assassinaram 4.068 pessoas em todo o país apenas em 2024. Desses números, jovens de 18 a 29 anos representaram 57,1% das vítimas, sendo 86,2% negras.
Para Nívia, a violência do Estado é como a bomba de Hiroshima e Nagasaki: explode de uma vez, mas seus efeitos permanecem para sempre. A ausência de respostas, de apoio psicológico, de justiça e de perspectiva adoece. A saudade é imensa; lutar diariamente cansa e, às vezes, parece inútil. Ainda assim, ela transforma a injustiça em combustível, pois desistir não é uma opção. Por sua formação em História, vê a memória como resistência. Nívia participou da Rede da Baixada e, através desse projeto, nasceu o documentário “Nossos Mortos têm voz”, que chegou a diversos países. Até hoje mantém intacta a parede amarela de seu quintal, pintada por Rodrigo. Um mural foi feito para eternizar o jovem. Nívia luta para que a história de seu filho não caia no esquecimento. E é por isso que ela continua. Porque, enquanto ela continuar, Rodrigo não morre pela segunda vez.

Comentários